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quarta-feira, 2 de março de 2011

As pioneiras da literatura brasileira

No mês em que se incensa, especial e justamente, a Mulher, pensamos em trazer à luz algumas brasileiras que despontaram pioneiramente em nossa literatura, quando o espaço feminino era exíguo e ignorado. Ressalta-se ainda que a mulher, somente no segundo quartel do século XX, no Brasil e em grande parte do mundo, teve acesso ao voto, à universidade, aos direitos plenos e à equiparação aos homens.

Apenas para delimitarmos o foco dessa pequena contribuição, restringimos às desbravadoras de fato, ou seja, aquelas nascidas no século XIX, contemporâneas ao advento da própria literatura nacional com o Romantismo, que tem como marco inicial a obra “Suspiros poéticos e saudades”, de Gonçalves de Magalhães, de 1836 .

Falamos, em ordem cronológica de nascimento e aparição, das notáveis e pouco lembradas nos manuais de literatura e nos conteúdos das universidades, Nísia Floresta, Narcisa Amália, Júlia Cortines, Ibrantina Cardona, Francisca Júlia e Auta de Souza.

Nísia nasceu Dionísia Pinto Lisboa, em Papari, Rio Grande do Norte – município que hoje ostenta seu nome, em 1809, no sítio Floresta. Após a Revolução de 1824, casada por imposição, deixou o estado natal devido a perseguições políticas movidas contra sua família. Em contraposição a seu tempo, Nísia abandonou o marido poucos anos depois e uniu-se a Manuel Augusto de Faria Rocha, em 1830. Em 1832, ano em que nasce o seu primeiro filho, Nísia traduz o principal tratado feminista da época, A vindication of the rights of woman, de Mary Wollstonecraft. Publicada originalmente em Londres, em 1792 – ano da deflagração da Inconfidência Mineira – expunha a tese da autora, em oposição a Rousseau, de que as mulheres, se “educadas, perderiam seu poder natural sobre os homens.” Wollstonecraft defendia que as mulheres deveriam desenvolver o intelecto, buscar independência, sair ao mundo. Com esse espírito, Nísia, autodidata, iniciou-se no magistério, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde fundou um célebre educandário: o Colégio Augusto, em 1838, que funcionou inicialmente na atual rua 1º de Março, e depois à rua D. Manuel, vizinho ao tradicional Colégio e Mosteiro de São Bento. Em 1842, publicou Conselhos à minha filha e fazia, paralelamente, conferencias abolicionistas e republicanas. Em 1847, ano profícuo, aparecem Fany ou o modelo das donzelas; O discurso que às suas educandas dirigiu Nísia Floresta Brasileira Augusta, em 18 de dezembro de 1847 e Daciz ou a jovem completa. A lágrima de um caeté, poema indianista de 39 páginas sobre a Revolução Praieira, em 1849, assinala o ingresso definitivo de Nísia Floresta na literatura, em tom muito afinado aos seus pares Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias. No ano seguinte, publica um romance histórico – à maneira de Walter Scott e José de Alencar - , em dois volumes: Dedicação de uma amiga. Sua obra-prima Opúsculo humanitário, enfeixando 62 artigos voltados à prática pedagógica, é publicada pouco antes de sua partida à Europa, na França, onde viveria e seguiria produzindo e publicando até sua morte, em 1885. Profundamente influenciada pelas filosofias políticas de seu tempo – a filosofia do Iluminismo, o Idealismo romântico, o Positivismo e o Utilitarismo - e pelas idéias daí decorrentes, a obra revolucionária de Nísia Floresta Brasileira Augusta, pelo vanguardismo que ainda traz em seu bojo, se apresenta como um desafio à contemporaneidade.

Nascida em São João da Barra, Estado do Rio de Janeiro, a 3 de abril de 1852, Narcisa Amália de Oliveira Campos possuía vários pontos de contato com Nísia: professora, casou-se duas vezes, atipicamente; era de temperamento forte, irrequieto, feminista, abolicionista, fortemente influenciada por Victor Hugo e Castro Alves e foi a primeira jornalista profissional do Brasil, defendendo idéias libertárias e feministas. Como Nísia, também traduziu (Histoire de ma vie, de George Sand; e Romance de uma mulher que amou, de Arsène Houssave). Aos vinte anos editou Nebulosas, volume de poesias que teria encantado o Imperador, declamando à Narcisa, de memória, alguns poemas, de onde extraímos o seguinte soneto:

"O Lago".

Calmo, fundo, translúcido, amplo, o lago

longe, trêmulo, trêmulo, morria.

No seu límpido espelho a ramaria,

curva, de um bosque punha sombra e afago.

Terra e céu, ondulando, eram na fria

tela fundidos! O queixume vago

que a água modula, de ambos parecia,

solto, ululante, intérmino, pressago!

- "Trecho vulgar de sítio abstruso e agreste"

talvez; mas todo o encanto que o reveste

sentisses; contemplasses-lhe a beleza;

comigo ouvisses-lhe a mudez, que fala,

e sorverias no frescor que o embala

todo o alento vital da Natureza!

De Júlia Cortines (Rio Bonito, RJ, 1868 – 1948, Rio de Janeiro, capital) há quase nenhuma informação; sabe-se que, coincidentemente com suas colegas, foi professora primária e publicava em A Semana. Parnasiana, publicou, em 1894, Versos, alcançando algum sucesso. Em 1905, Vibrações foi elogiado por José Veríssimo, que afirmou na época: "Os poemas de Júlia Cortines distanciam-se magnificamente da poesia de água-de-cheiro e de pó-de-arroz da musa feminina brasileira, e revelam em Júlia, mais que uma mulher que sabe sentir, alguém que sente com alma e coração e de forma que disputa primazias com nossos melhores poetas contemporâneos."

Ibrantina de Oliveira Cardona nasceu a 11 de outubro de 1868 – como Júlia Cortines – em Nova Friburgo, RJ. Mulher dotada de rara inteligência, também publicou em periódicos, em seu tempo; o verdeamarelista e integralista Plínio Salgado elogiou seu Heptacórdio, de 1922. Posteriormente, editou Kleópatra e outros títulos. Faleceu em São José do Rio Pardo, a 23 de dezembro de 1956.

Francisca Júlia da Silva Münster nasceu em Eldorado, São Paulo, a 31 de agosto de 1871. Aos vinte anos de idade já publicava em alguns diários paulistanos e cariocas, alcançando crescente notoriedade. Despontando em meio à vigência do Parnasianismo, Francisca Júlia vestiu perfeitamente o seu tempo, editando, em 1895, Mármores ( ampliado em 1903 como Esfinges), sobressaindo o descritivismo, o desinteresse do mundo exterior e certa frieza. Formalmente, adéqua-se ao preciosismo de seus pares – Bilac, Raimundo Correa, Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho - , alinhando-se no esmero vocabular, no rimário raro, exato, na perfeição rítmica peculiar. Sua poesia, apreciada ainda em seu tempo, foi, como os demais parnasianos, patrulhada e esquecida pelos modernistas da primeira geração. Mereceu releituras e revisões no chamado Neoparnasianismo da metade do século XX e, entre redescobertas, achou-se também uma invulgar inclinação simbolista, de feição mística, sem superar, no entanto, a impassibilidade que mereceria, em mármore de Carrara, uma escultura do modernista Victor Brecheret, sobre seu jazigo, onde a poeta repousa, no cemitério do Araçá, São Paulo, desde 2 de novembro de 1920. A obra ali ficou até 2006, quando foi restaurada e transferida para a Pinacoteca de São Paulo. Em seu lugar está uma réplica em bronze.

A Musa Impassível

I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

Auta de Souza nasceu em Macaíba, pequena cidade do Rio Grande do Norte, a 12 de setembro de 1876. Os sofrimentos sublinharam sua vida desde a tenra infância: aos cinco anos já era órfã de pai e mãe; aos oito já lia para as crianças pobres, para humildes mulheres do povo ou velhos escravos a "História de Carlos Magno", brochura que fazia sucesso no agreste nordestino, bem ao gosto popular de então. Criada pela avó Dindinha, viu ainda, dois anos depois, seu irmão ser consumido por um incêndio em casa. São fatos definidores e marcantes na poética de Auta: a orfandade; a dor das perdas; um profundo misticismo e a recompensa da avó, presença doce e maternal.

Antes dos 12 anos é matriculada no Colégio de São Vicente de Paulo, onde religiosas francesas lhe ofertam primorosa educação: Literatura, Francês, Inglês, Música, Desenho...

Assim, lê, no original, Lamartine, Victor Hugo, Chateaubriand, Fénelon, bem como lerá, também, a "Imitação do Cristo" as obras de Santa Teresa d’Ávila e os "Pensamentos de Marco Aurélio. Em 1890 apareceram os primeiros sintomas da tuberculose que iria consumi-la, brevemente. Auta segue escrevendo, relaciona-se com seus contemporâneos, leciona religião, mas não resiste à doença. Quando seu único livro de poemas Horto é publicado, Auta está em Natal: 20 de junho de 1900. A edição prefaciada por Bilac se esgota em dois meses. Em janeiro de 1901, pressente a morte iminente, e escreve seus últimos versos. Tinha 24 anos.

Embora a crítica geralmente enquadre a poeta como simbolista, quer pela contemporaneidade, quer pela temática mística, metafísica e incorpórea, sua poesia encontra fortíssima influência de Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu, no sentimentalismo, na dicção popular, na ingenuidade e no metaforismo simples, revelando, sobretudo, um romantismo tardio e bem demarcado.

Outras autoras mereceriam créditos e referências, e mesmo essas citadas, um opulento e debruçado estudo crítico, com peças de exemplo e farta iconografia. Mas a delimitação de espaço é inevitável e categórica; deixemos e esperamos que o leitor, aguçado pela curiosidade, siga adiante, rastreie, pesquise e leia as poetas aqui citadas, lembrança necessária e urgente de mulheres que desbravaram caminhos, abriram espaços e acenderam as primeiras luzes. Agora e sempre, as nossas homenagens e o preito de gratidão.


[E1]inclusão

[E2]inclusão

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quatro mulheres pioneiras da Lit. Brasileira

Impõe-se um texto que fale um pouco de um quarteto de mulheres excepcionais, pioneiras na literatura brasileira. São quatro vértices distintos na forma e no teor; entretanto, constituem a forma primeira da voz feminina em nossas letras. Falo de Nísia Floresta, Auta de Souza, Francisca Júlia e Narcisa Amália.
Em breve

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Acho que um blog não deve ser um diário pessoal... Vejo exemplos de blogs extraordinários de amigos, usando-os com mestria e elegância.
Vou buscar isso.
Contar histórias.
Publicar poesia.
E deixar que os espaços tenham sempre a dizer.

É isso